quinta-feira, 15 de maio de 2014

BREVE INTRODUÇÃO À TRANSEXUALIDADE


Decidi, para a minha estreia no blog, falar sobre um tema que, para muitas pessoas, feministas ou não, ainda é muito complexo (principalmente graças à falta de visibilidade e à associações errôneas): a transexualidade. Durante esse mês de maio, está rolando na UFRJ o I Ciclo de Cine-Debates do Laboratório de Gênero e o tema do mês são as pessoas trans. Confesso que tinha muita dificuldade com essa questão: sempre fiz confusão e, mais que isso, no começo da minha militância eu não via a transexualidade como questão feminista. Após alguma pesquisa, entendi bastante sobre transfeminismo, mas me faltava ainda conhecimento sobre as pessoas trans em si. Por isso, decidi ir ao Cine-debate e tem me ajudado bastante.

Antes de começar a tratar qualquer questão específica, acho importante falar sobre as dúvidas que se tem quanto aos termos usados. Pode parecer bobeira, mas muita gente faz confusão e, por vezes, acaba ofendendo a pessoa trans sem sequer ter a intenção. Vamos lá:
O símbolo transfeminista
- Pessoa trans: é a pessoa que não se identifica com o gênero de nascimento. Pessoa cis: é a pessoa que se identifica com o gênero de nascimento. 
- Homem transexual ou homem trans é o homem que, embora em seu nascimento tenha sido designado mulher, se identifica como pertencente ao gênero masculino; a mulher trans é a mulher que, embora em seu nascimento tenha sido designada homem, se identifica como mulher.
- Caso você tenha de lidar com uma pessoa trans no seu dia-a-dia e não saiba como se referir a ela, pergunte: "como você gostaria que te chamasse?". Perguntar não ofende. O que pode vir a ser ofensivo é chamar a outra pessoa por um gênero com o qual ela não se identifica.
- É importante dizer, também, que não existem só homens trans e mulheres trans; existem pessoas genderqueer, que engloba pessoas não são exclusivamente homem nem mulher, estando portanto fora do binário de gênero; e mais uma infinidade de identidades possíveis. Quem decide como se sente é a pessoa; quem normatizou as identidades foi a sociedade.

A construção social do gênero
Quando está dentro da barriga da mãe, o feto não é nada. Nem menino, nem menina. Ele pode ter o cromossomo XX ou XY, pode ter vagina ou pênis, a mamãe pode decorar o quarto todo de azul ou de rosa... Mas até sair da barriga, o feto é só o feto. 
Mas o mundo do lado de fora da barriga já definiu para o feto: ou menino, ou menina.  Enquanto elx está na barriga, já está todo mundo querendo saber o sexo, e quando se descobre, começa a chegada dos presentes de acordo com o gênero: vestidinho rosa pra garota, macacãozinho azul para o garoto.
Então, a mãe entra em trabalho de parto, e nasce o bebê. Alguém pega um pedaço de papel e marca o sexo e pronto: agora é oficial. Decidiram pelo bebê o que ele é!
Se esse bebê for um menino, vai ser recebido num quarto azul decorado com carrinhos e dinossauros. Conforme for crescendo, vai descobrir que tem de ser valente e corajoso; vai ganhar brinquedos que estimulem sua inteligência, seu espírito de aventura, suas habilidades de construção e também de destruição. Se por acaso o menino pega uma boneca para brincar, é briga certa: onde já se viu, menino brincando de boneca?
Se esse bebê for menina, o quarto da princesa lhe aguarda. Tudo rosa, como deve ser. A menina aprende desde cedo que deve ser doce e gentil, e suas brincadeiras são casinha, comidinha, o bebê e a Barbie. A princesinha não pode jogar bola nem subir na árvore: coisa de moleque.
João Nery antes e depois de externar a transexualidade
Essas situações servem para mostrar como o gênero é muito mais construído do que natural. Desde muito cedo, as crianças são estimuladas a seguir um padrão limitador e baseado nos papeis que foram designados ao seu gênero. O que ninguém se lembra é de perguntar à criança se aquilo lhe agrada. João Nery, primeiro homem trans a operar-se no Brasil, na época da ditadura militar, relatou inúmeras vezes as situações de sua infância que o incomodavam. Uma vez, aos 6 anos e ainda Joana, se recusou a vestir a camisa: "Por que o papai pode ficar sem camisa e eu não?". Então, ouviu que deveria se "comportar como mocinha". 
"Meio homem, meio mulher": desenho de menina trans de 8 anos
É claro que nem todo comportamento que ocorra fora do padrão de gênero pré-estabelecido signifique que a criança é transexual. É muito mais profundo que isso. Quando um menino brinca de bonecas, por exemplo, não significa que ele queira ser uma menina ou que ele vá querer ser, um dia; tampouco significa demonstração de futura homossexualidade. Muitas vezes, nada mais é do que o puro e simples brincar. E ponto.
Ainda assim, há crianças que, desde a mais tenra idade, tem consciência de sua "diferença". Sofrem muito com isso: sentem-se culpadas, confusas e perdidas, e, quase sempre, desamparadas. Os pais, também eles criados sob os padrões dicotômicos de gênero, não sabem como lidar com a situação, reprimindo e causando grande sofrimento.

O gênero estampado na carne
Lea T
Um problema pelo qual as pessoas trans passam muitas vezes vem da parte física. Muitos optam por não fazer a operação de mudança de sexo pelo motivo que lhes cabe. Isso não os torna menos trans. É muito desconfortável e humilhante para uma pessoa trans ouvir, por exemplo: "Como você pode ser um homem, se possui vagina?" ou "Se não é operada, não é trans; é travesti." Lea T, modelo brasileira transexual, afirmou em entrevista ao Fantástico que a mudança de sexo não trouxe felicidade a ela; então, não é necessariamente o desejo pela cirurgia que move ou caracteriza uma pessoa trans; mas sim, não se sentir pertencente ao gênero de nascença.
Um dos motivos para não se fazer cirurgia, aqui no Brasil, pelo SUS, é a dificuldade do "processo". É necessário passar por 2 anos de tratamento psicológico para que se consiga um laudo atestando a transexualidade; dependendo dx médicx que fará a operação, é necessário também um aval psiquiátrico. Ou seja, são necessários dois anos de tratamento para que outra pessoa comprove que se é o que se sabe que é desde muito tempo antes. 
Brandon Teena e Hillary Swank
As pessoas trans sofrem violência física e psicológica ao serem brutalizadas e obrigadas a confrontar seu gênero de nascença. Brandon Teena foi uma das vítimas desse tipo de violência: escondeu o fato de ter nascido mulher por algum tempo, mas ao ser descoberto, foi estuprado e posteriormente morto por dois homens. Sua história tornou-se documentário e, posteriormente, filme: "Meninos não Choram", de Kimberly Peirce. Tem-se a ideia errada de que se pode "curar" alguém da transexualidade, ou que a pessoa não teve experiências o suficiente para se convencer de seu gênero. Ideias totalmente equivocadas, abusivas e usadas para justificar atrocidades, como o que ocorreu com Brandon.

A afirmação das pessoas trans e o machismo
Muitos homens trans, no processo de afirmação de sua identidade masculina, agem reproduzindo o que há de pior nos homens e lançam mão do machismo para afirmarem-se enquanto homens. Ao mesmo tempo, sofrem igualmente com o mesmo machismo que inflige às mulheres com quem convive. Essa maneira de afirmação nada mais é do que a reprodução do homem de que se tem referência: a necessidade de demonstrar "masculinidade" e "virilidade" é copiada dos homens cis, que a todo momento procuram agir como o  macho. Porém, o que passa despercebido ao homem trans, muitas vezes, é que eles, assim como as mulheres, também são vítimas do pensamento conservador; muitos homens cis, respaldados pelo pensamento machista, agridem tudo que foge ao que ele é, ou seja, as mulheres cis, as pessoas trans, os homossexuais etc. Esse tipo de comportamento é estimulado pelos outros homens numa espécie de competição afirmativa onde os pontos são dados àqueles que conseguem oprimir x outrx. Essas agressões, por vezes, não ficam nas ofensas verbais e agressões psicológicas; acabam com violência física e homicídios. O Brasil lidera no número de mortes de travestis e transexuais; somente entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram registradas 486 mortes no país. Considerando que nem todas as mortes são registradas como sendo especificamente devidas à questão do pertencimento ao grupo LGBTT, esse número deve ser ainda maior. 

A questão do trabalho para a população trans
A imagem de mulher trans quase sempre vem associada à prostituição e não é à toa. Segundo dados da ANTRA (Associação nacional de travestis e transexuais), 90% das mulheres trans e travestis estão se prostituindo no Brasil. A grande maioria está no mercado do sexo porque lhe foram negadas oportunidades; algumas sequer conseguem obter formação e, as que conseguem, sofrem preconceito no mercado formal. Ainda que este panorama esteja mudando, o estigma ainda é muito forte.
Buck Angel
No que eu acredito que seja mais uma expressão de machismo, também existe a ideia de que homens trans sejam os caminhoneiros, motoristas de ônibus, mecânicos: profissões estritamente masculinas nas quais os homens trans estariam querendo se infiltrar. Mas essa visão é bastante limitada e errônea. Erra também quem crê que somente mulheres trans estão na indústria do sexo: Buck Angel é um homem trans famoso por fazer filmes eróticos. Ele não fez a operação de mudança de sexo, e apresenta o sexo de diversas maneiras em seus filmes; o que nos leva ao último tópico. 

A identidade de gênero e a orientação sexual
Muitas pessoas afirmam que uma pessoa trans tem de ser necessariamente hétero (leia-se: se ela é mulher, por exemplo, então ser hétero vai significar que se sente atraída por homens; não se considera o sexo de nascimento mas sim o sexo com o qual a pessoa se identifica). Mas as coisas não são tão preto no branco. Identidade de gênero é uma coisa; orientação sexual, outra. Daí também derivam as confusões em dizer que uma pessoa trans é, na verdade, uma pessoa cis homossexual, e não é bem por aí. A identidade de gênero independe da orientação sexual e vice-versa. É perfeitamente normal que hajam pessoas trans homossexuais, bissexuais ou qualquer orientação possível dentro do vasto espectro de orientação sexual. É preciso desconstruir o padrão heteronormativo até mesmo quando se trata de transexualidade.
O que não se pode deixar de entender é que os padrões construídos são isso mesmo: padrões construídos. E sabemos que tudo que é construído pode ser destruído também. O mundo não é ou não deveria ser como um jogo de tabuleiro, onde cada um é uma peça com seus papeis já determinados e imutáveis. É necessário desconfiar de tudo aquilo que é apresentado como natural e questionar a ordem vigente. A partir do momento em que não se fere outra pessoa, por que o comportamento pessoal de alguém tem que ser motivo de escárnio, ofensa e agressão? Pensar o papel de cada um de nós na mudança social é um passo decisivo para um mundo de respeito. Sair do pensamento preto no branco, também. 

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