
Decidi, para a minha estreia no blog, falar sobre um tema que, para muitas pessoas, feministas ou não, ainda é muito complexo (principalmente graças à falta de visibilidade e à associações errôneas): a transexualidade. Durante esse mês de maio, está rolando na UFRJ o I Ciclo de Cine-Debates do Laboratório de Gênero e o tema do mês são as pessoas trans. Confesso que tinha muita dificuldade com essa questão: sempre fiz confusão e, mais que isso, no começo da minha militância eu não via a transexualidade como questão feminista. Após alguma pesquisa, entendi bastante sobre transfeminismo, mas me faltava ainda conhecimento sobre as pessoas trans em si. Por isso, decidi ir ao Cine-debate e tem me ajudado bastante.
Antes de começar a tratar qualquer questão específica, acho importante falar sobre as dúvidas que se tem quanto aos termos usados. Pode parecer bobeira, mas muita gente faz confusão e, por vezes, acaba ofendendo a pessoa trans sem sequer ter a intenção. Vamos lá:
| O símbolo transfeminista |
- Pessoa trans: é a pessoa que não se identifica com o gênero de nascimento. Pessoa cis: é a pessoa que se identifica com o gênero de nascimento.
- Homem transexual ou homem trans é o homem que, embora em seu nascimento tenha sido designado mulher, se identifica como pertencente ao gênero masculino; a mulher trans é a mulher que, embora em seu nascimento tenha sido designada homem, se identifica como mulher.
- Caso você tenha de lidar com uma pessoa trans no seu dia-a-dia e não saiba como se referir a ela, pergunte: "como você gostaria que te chamasse?". Perguntar não ofende. O que pode vir a ser ofensivo é chamar a outra pessoa por um gênero com o qual ela não se identifica.
- É importante dizer, também, que não existem só homens trans e mulheres trans; existem pessoas genderqueer, que engloba pessoas não são exclusivamente homem nem mulher, estando portanto fora do binário de gênero; e mais uma infinidade de identidades possíveis. Quem decide como se sente é a pessoa; quem normatizou as identidades foi a sociedade.
A construção social do gênero
Quando está dentro da barriga da mãe, o feto não é nada. Nem menino, nem menina. Ele pode ter o cromossomo XX ou XY, pode ter vagina ou pênis, a mamãe pode decorar o quarto todo de azul ou de rosa... Mas até sair da barriga, o feto é só o feto.
Mas o mundo do lado de fora da barriga já definiu para o feto: ou menino, ou menina. Enquanto elx está na barriga, já está todo mundo querendo saber o sexo, e quando se descobre, começa a chegada dos presentes de acordo com o gênero: vestidinho rosa pra garota, macacãozinho azul para o garoto.
Então, a mãe entra em trabalho de parto, e nasce o bebê. Alguém pega um pedaço de papel e marca o sexo e pronto: agora é oficial. Decidiram pelo bebê o que ele é!
Se esse bebê for um menino, vai ser recebido num quarto azul decorado com carrinhos e dinossauros. Conforme for crescendo, vai descobrir que tem de ser valente e corajoso; vai ganhar brinquedos que estimulem sua inteligência, seu espírito de aventura, suas habilidades de construção e também de destruição. Se por acaso o menino pega uma boneca para brincar, é briga certa: onde já se viu, menino brincando de boneca?
Se esse bebê for menina, o quarto da princesa lhe aguarda. Tudo rosa, como deve ser. A menina aprende desde cedo que deve ser doce e gentil, e suas brincadeiras são casinha, comidinha, o bebê e a Barbie. A princesinha não pode jogar bola nem subir na árvore: coisa de moleque.
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| João Nery antes e depois de externar a transexualidade |
| "Meio homem, meio mulher": desenho de menina trans de 8 anos |
Ainda assim, há crianças que, desde a mais tenra idade, tem consciência de sua "diferença". Sofrem muito com isso: sentem-se culpadas, confusas e perdidas, e, quase sempre, desamparadas. Os pais, também eles criados sob os padrões dicotômicos de gênero, não sabem como lidar com a situação, reprimindo e causando grande sofrimento.
O gênero estampado na carne
| Lea T |
Um problema pelo qual as pessoas trans passam muitas vezes vem da parte física. Muitos optam por não fazer a operação de mudança de sexo pelo motivo que lhes cabe. Isso não os torna menos trans. É muito desconfortável e humilhante para uma pessoa trans ouvir, por exemplo: "Como você pode ser um homem, se possui vagina?" ou "Se não é operada, não é trans; é travesti." Lea T, modelo brasileira transexual, afirmou em entrevista ao Fantástico que a mudança de sexo não trouxe felicidade a ela; então, não é necessariamente o desejo pela cirurgia que move ou caracteriza uma pessoa trans; mas sim, não se sentir pertencente ao gênero de nascença.
Um dos motivos para não se fazer cirurgia, aqui no Brasil, pelo SUS, é a dificuldade do "processo". É necessário passar por 2 anos de tratamento psicológico para que se consiga um laudo atestando a transexualidade; dependendo dx médicx que fará a operação, é necessário também um aval psiquiátrico. Ou seja, são necessários dois anos de tratamento para que outra pessoa comprove que se é o que se sabe que é desde muito tempo antes.
| Brandon Teena e Hillary Swank |
As pessoas trans sofrem violência física e psicológica ao serem brutalizadas e obrigadas a confrontar seu gênero de nascença. Brandon Teena foi uma das vítimas desse tipo de violência: escondeu o fato de ter nascido mulher por algum tempo, mas ao ser descoberto, foi estuprado e posteriormente morto por dois homens. Sua história tornou-se documentário e, posteriormente, filme: "Meninos não Choram", de Kimberly Peirce. Tem-se a ideia errada de que se pode "curar" alguém da transexualidade, ou que a pessoa não teve experiências o suficiente para se convencer de seu gênero. Ideias totalmente equivocadas, abusivas e usadas para justificar atrocidades, como o que ocorreu com Brandon.
A afirmação das pessoas trans e o machismo
A questão do trabalho para a população trans
A imagem de mulher trans quase sempre vem associada à prostituição e não é à toa. Segundo dados da ANTRA (Associação nacional de travestis e transexuais), 90% das mulheres trans e travestis estão se prostituindo no Brasil. A grande maioria está no mercado do sexo porque lhe foram negadas oportunidades; algumas sequer conseguem obter formação e, as que conseguem, sofrem preconceito no mercado formal. Ainda que este panorama esteja mudando, o estigma ainda é muito forte.
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| Buck Angel |
A identidade de gênero e a orientação sexual
Muitas pessoas afirmam que uma pessoa trans tem de ser necessariamente hétero (leia-se: se ela é mulher, por exemplo, então ser hétero vai significar que se sente atraída por homens; não se considera o sexo de nascimento mas sim o sexo com o qual a pessoa se identifica). Mas as coisas não são tão preto no branco. Identidade de gênero é uma coisa; orientação sexual, outra. Daí também derivam as confusões em dizer que uma pessoa trans é, na verdade, uma pessoa cis homossexual, e não é bem por aí. A identidade de gênero independe da orientação sexual e vice-versa. É perfeitamente normal que hajam pessoas trans homossexuais, bissexuais ou qualquer orientação possível dentro do vasto espectro de orientação sexual. É preciso desconstruir o padrão heteronormativo até mesmo quando se trata de transexualidade.

O que não se pode deixar de entender é que os padrões construídos são isso mesmo: padrões construídos. E sabemos que tudo que é construído pode ser destruído também. O mundo não é ou não deveria ser como um jogo de tabuleiro, onde cada um é uma peça com seus papeis já determinados e imutáveis. É necessário desconfiar de tudo aquilo que é apresentado como natural e questionar a ordem vigente. A partir do momento em que não se fere outra pessoa, por que o comportamento pessoal de alguém tem que ser motivo de escárnio, ofensa e agressão? Pensar o papel de cada um de nós na mudança social é um passo decisivo para um mundo de respeito. Sair do pensamento preto no branco, também.


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